Meu nome é Angie Goldensmith, e eu tinha apenas 9 anos quando tudo começou.
A maioria das pessoas tem uma história bonita, ou divertida para contar sobre a sua
infância, mas infelizmente, não foi assim que recordo da minha, pois tudo o que eu vivi
quando era apenas uma criança, marcou a minha vida para sempre.
Eu nasci em um lar muito rico, com todo o conforto que uma menina rica está acostumada a
ter. Estava destinada a ser a grande herdeira da cidade, ou melhor, do País.
Meu pai era Alberto Goldensmith, um grande empresário, que a cada dia crescia mais em
seu ramo. Ele comercializava ouro, mais precisamente, joias feitas do mais puro ouro. O Sr.
Alberto sempre foi um homem sério e distante para a maioria das pessoas, inclusive para a
minha mãe, mas comigo, meu pai era outra pessoa, ele era o meu heroi. Sempre que
estávamos sozinhos ele me contava muitas histórias e me dava conselhos, apesar do
mundo em que vivíamos.
O polo principal da fábrica de ouro ficava no centro de Montrisud, uma das cidades mais
ricas de toda a Fetmancity.
Vivíamos com muito glamour e conforto, mas não havia amor. Meu pai e minha mãe viviam
discutindo, pois tudo o que ele pensava estava relacionado ao trabalho e sequer tinha
tempo para estar conosco. Com isso, minha mãe ficava cada vez mais cansada de esperar
por ele.
Não era só em casa que meu pai enfrentava conflitos, em um de seus negócios, papai havia
dado um golpe em um dos seus compradores, não sei bem o que ele havia feito porque na
época eu era muito jovem para entender, mas foi algo grave. Para resolver a situação, ele
só precisava devolver o dinheiro, mas, papai não era mais o mesmo, a única coisa que lhe
importava, era o dinheiro, o maldito do dinheiro, ele sequer pensou que tanta ganância
poderia afetar a segurança de sua família.
O comprador que havia sido enganado era Jhon Stouths. Eu não o conhecia, mas depois de
um tempo, ouvi falar de sua fama. Ele era conhecido como um homem de caráter duvidoso,
e desejos extravagantes. Possuía uma das maiores Joalherias de Montrisud, e sempre foi
conhecido por usar meios escusos para adquirir o que queria. Papai por sua vez o havia
enganado e ele não deixaria isso barato.
Algumas semanas após o golpe, nossa família recebeu inúmeras ligações e cartas
ameaçadoras. Papai ria das ameaças como se não tivessem fundamento. Até que coisas
terríveis começaram a acontecer.
Após as ameaças, Jhon começou a agir, deixando claro para papai, que lhe tiraria que de
precioso tinha: sua família. Porém papai continuou pensando que tudo não passava de um
blefe, mas Jhon, provou o contrário.
Em um domingo, estavam todos reunidos para um almoço em família, quando papai
recebeu uma ligação, que lhe deixou perplexo a ponto do telefone cair. Todos nós ficamos
curiosos para saber o que havia acontecido.
Mamãe apanhou o telefone, era a tia Samantha, a irmã de papai, ela estava muito nervosa
e chorava inconsolável, dizendo que a vovó havia morrido.
Eu nunca havia tido contato com vovó, eu só a conhecia por fotografias, então pra mim, era
uma triste fatalidade. Mas para papai, foi um baque terrível. Ele teve um aumento de
pressão a ponto de precisar ser internado. Ficou dois dias sob observação e os médicos
recomendaram à mamãe que ele não se estressasse.
O que eu nunca entendi foi, como papai havia ficado afastado por tanto tempo, se naquele
momento, ele parecia ter uma ligação tão forte com a vovó?
O período de observação mal havia terminado e papai já estava de volta na empresa.
Mamãe havia implorado para que ele não voltasse tão rápido ao trabalho.
— Por favor, querido, fique aqui por mais um tempo. Se você quiser podemos ir para a
casa de campo descansar um pouquinho. — Ela sugeriu, mas ele ignorou seu
pedido,como sempre. O olhar de decepção de mamãe não poderia ser disfarçado.
Mesmo com todos os problemas e papai tendo se desligado da família por um grande
tempo, mamãe era sempre paciente e amável. Eu a achava a mulher mais doce do mundo.
Ela sempre dizia: — Angie querida, não fique triste, o papai só está agindo assim, porque
está sofrendo com a morte da vovó, mas logo ele voltará a ser o mesmo de antes.
Quem ela pensava que estava enganando? Nós duas sabíamos que não era verdade.
Enquanto a maldita empresa fosse bem, papai não seria o mesmo.
Quem dera fosse como antes, quando papai estava sempre em casa e sempre tinha tempo
para brincar comigo, além cuidar da família. Antes ele e minha mãe pareciam tão
apaixonados. Cheguei a ouvir eles comentando sobre a ideia de ter um segundo filho, mas
essa ideia logo foi deixada em segundo plano.
Antes papai era apenas o Vice-presidente da empresa, mas após a morte do vovô, uma
morte bastante suspeita, ele acabou assumindo a empresa. Mamãe chegou a comentar que
vovó poderia assumir a presidência, mas, papai disse que os funcionários não gostavam
muito dela e que costumava ser desagradável com a maioria dos sócios, então eles jamais
a aceitariam.
Todos os acionistas votaram para que meu pai assumisse a presidência. Foi então que o
trabalho dobrou.
Desde que a empresa começou a crescer, ele só queria saber de trabalhar. Não brincava
comigo, nem voltava para casa todas as noites e para compensar, me dava brinquedos
caros, jóias e roupas caras para a mamãe. Os dois discutiam todas as noites assim que
papai chegava.
Eu me lembro, que as ameaças não pararam… Certo dia, eu estava sozinha com a babá e
o telefone tocou, quando atendi, parecia ser uma gravação que dizia: — Você acha mesmo
que eu estou brincando? Não me faça perder a paciência. Devolva logo tudo o que me
roubou, ou não terei piedade!
Desliguei o telefone apavorada. Minhas pernas tremiam e eu não entendia bem, mas pelo
que ouvi, papai era um ladrão e essa voz queria fazer mal a ele. Eu não queria acreditar
naquilo. Não podia acreditar que meu pai, o meu heroi, estava sendo ameaçado como um
bandido. Tinha que haver uma explicação pra isso tudo.
A noite, quando papai chegou, contei tudo a ele. No primeiro momento, papai pensou ser
fruto da minha imaginação, mas a babá confirmou minha versão. Vi o semblante dele mudar
ao ponto de trocar olhares com a mamãe, que pareceu entender tudo.
—Venha Angie, vamos para o quarto, você precisa descansar. — Disse a babá.
Eu não queria ir, pois queria ficar lá, queria saber.
— Não! Eu quero saber a verdade! Eu tenho o direito de saber Papai! — Gritei decidida.
Eu precisava da resposta, precisava saber se meu pai era um criminoso.
Minha mãe me olhava admirada, enquanto papai se aproximava sério. Ele se ajoelhou para
ficar da minha altura, me olhou firme e tocou levemente a minha bochecha. Depois sorriu,
não era o sorriso largo e envolvente de sempre, era um sorriso fraco, quase apagado, como
se ele sentisse muita dor ao sorrir. Aquilo me angustiou.
— Olha pra você meu anjinho.. Caramba! Como você cresceu! — Ele disse me colocando
sentada em seu joelho.
—Cresci papai. Eu já estou quase batendo no ombro da mamãe, olha só. — Eu disse me
aproximando mais para que ele medisse as alturas.
Ele ficou parado, sem falar por alguns minutos.
—O que foi papai? Você está triste? Foi a ligação daquele homem que te deixou assim? —
Perguntei preocupada.
— Não minha querida, é só saudade..
— Saudade? Saudade de quê Papai?
—Saudades do tempo que eu perdi meu anjinho, saudades de quando tudo era mais
simples, de quando nós três passávamos todo o tempo juntos. — Ele disse pensativo.
E mamãe o encarava com os olhos cheios de água.
—Ah papai, mas nós ainda temos muito tempo! É só você tirar férias! A gente pode ir pra
casa do campo, podemos fazer um piquenique, fazer churrasco na beira do lago, jogar bola,
comer bolo, vai ser esplêndido!
— Esplêndido? Onde foi que você aprendeu essa palavra, minha anjinha? — Papai
perguntou sorrindo.
— Com a mamãe oras! O senhor se esqueceu que ela é a melhor escritora do mundo? Ela
me deixou ler alguns capítulos do seu novo livro. Eu não pude ler tudo porque é um livro
para adultos, mas quando li o primeiro capítulo, nele estava escrito, “O amor verdadeiro
torna tudo Esplêndido!” Fui procurar no dicionário e descobri. Esplêndido quer dizer
luminoso, brilhante, quem tem esplendor. E é assim que é o nosso amor papai! Esplêndido!
Mamãe soltou uma gargalhada, mas seus olhos estavam tristes.
—Ah minha querida, Isis é verdade. Você é a luz das nossas vidas. — Ele disse.
Eu me sentei no colo do papai novamente, e olhei bem no fundo de seus olhos. — Você é
minha luz papai!
Eu não sabia o que havia dito, mas mamãe caiu no choro e ela não parecia só estar
emocionada.
— Mamãe? O que houve mamãe? Você também é minha luz, não precisa ficar triste. —Eu
tentei consolá-la. Mas, papai, interviu: —Bom mocinha, já está na hora de ir pra cama, pode
deixar que eu cuido da mamãe.
—Vamos lá Angie. — Disse Estela, minha babá.
Eu estava confusa demais para responder, então só obedeci, mas meu coração estava
partido por ver minha mãe chorando tanto.
Fui para o quarto, mas resisti ao sono por muito tempo. Desejei ser uma mosquinha para
saber o que estava acontecendo lá fora. “Porque mamãe estava tão emotiva? Será que ela
estava grávida? Eu li que mulheres grávidas choram à toa.”
Fiquei animada com a ideia de ter um irmãozinho e logo o sono conseguiu me alcançar.
COMENTÁRIOS DO CAPÍTULO